É um capricho, nos reservamos uma margem de erro. Na realidade, vivemos um momento em que se deve estar atento ao mercado, que está fraco, mesmo tendo tantos personagens no forno. Veja o caso de Julia, de Berardi: parece que falamos sobre isso há 10 dias mas ele está trabalhando no personagem há um ano e meio. Há a idéia de que a Editora Bonelli seja explosiva, vivaz, porém somos bastante lentos e inseguros. Não temos como fazer tudo de uma vez... Nós encorajamos projetos isolados, como Napoleone, que é administrado pelo próprio autor, Ambrosini, com poucos desenhistas. Ele tomou o cuidado de não atrapalhar o desenvolvimento das outras séries e, ao mesmo tempo, administrar aqueles poucos desenhistas que estão consigo. Por outro lado, não quero iludir as pessoas contratando trinta novos desenhistas quando não sei onde vamos parar: Magico Vento chegou ao n.8 e não sabemos ainda se será um sucesso que vai durar 10 anos ou apenas uns 3. Não quero dar trabalho a um jovem e depois abandoná-lo porque não consigo vender.
Por outro lado, os quadrinhos estão em dificuldade em quase todo o mundo…
Sim, cheguei há pouco da Inglaterra e não consegui encontrar uma revista em quadrinhos nas bancas nem pagando um milhão, exceto os mangás e os americanos vendidos em livrarias especializadas. Mas HQ em série e em preto e branco, nem sombra. Na França editam 20-30 páginas de Tex por mês, num formato pequenino, quando há poucos anos quase todos os nossos títulos tinham edições francesas. Eles, que foram os primeiros a darem uma guinada histórica, há poucos anos, hoje publicam quase que exclusivamente aqueles álbuns coloridos. E que já foram sinônimo de qualidade, mas hoje é só uma fórmula, não é mais um prêmio que o editor concede ao autor de destaque.
E em outros países as HQ não vendem mais?
Sim, nós conseguíamos vender nossos quadrinhos na Suécia, na Iugoslávia, na Noruega. Na Finlândia ainda conseguimos vender alguma coisa, pois é um mercado antigo e tradicional. Talvez vendam apenas por assinatura, já que o frio não lhes deixa sair de casa para ir à banca. Desse modo, não notam as mudanças editoriais e aí vão passando os Tex de pai para filho [risadinhas gerais, ndr]. O Brasil é o único lugar na América do Sul onde ainda vendemos. É bem verdade que hoje é só o Tex, pois os outros (Nathan Never, Dylan Dog, Zagor) tiveram vida curta.
Até Mister No chegou por aquelas bandas, nos parece.
Sim, mas apenas 3 ou 4 números. O editor era um esfarrapado que sumiu na floresta amazônica. Sem pagar, naturalmente. Tex, no entanto, está a cargo de uma grande editora, ligada à Rede Globo. Tex vende 30-40.000 exemplares, perdendo apenas para os personagens de Maurício de Souza, o Disney brasileiro.
Há esse projeto com a Dark House, dos Estados Unidos.
Na verdade, não estou tratando disso pessoalmente. Sei que faremos essa tentativa que, por motivos óbvios, terá características diferentes das nossas edições. Eles não o farão com muita boa vontade, em razão do preto e branco e do número de páginas. Nunca pudemos contar com esse mercado, há muitas diferenças: eles são contrários à fórmula do "continua" e 100 páginas é muito para eles... E eles têm um outro modo de estruturar a narrativa.
Voltando à Itália, já sabemos de Berardi. E sobre Milazzo, há previsão de que consiga terminar o seu Texone dentro do esperado?
Oh, sim, ele se meteu a trabalhar com muita boa vontade e já concluiu um bom número de páginas [publicamos algumas na prévia da edição de fevereiro da uBC, ndr]. Está fazendo uma "revisão" no personagem e algumas faces de Tex ainda precisam ser aprovadas. Precisa endurecer um pouquinho o maxilar, está meio delicado. Ainda que seja da própria filosofia do Texone as diversas interpretações do personagem, que não seriam aceitas na série normal, esse é um jogo que faço, com o intuito de prestigiar o aficionado leitor médio. Talvez ele possa não entender o trabalho desse grande autor se ficar muito distante dos desenhos habituais.
E esta nova interrupção de Ken Parker (mais uma)?
Ken Parker é uma publicação que eu amei por demais. Dei total liberdade aos autores quando me trouxeram o projeto, e lhes deixei com bastante autonomia quando entendi que eram espertos. Mas eu sofria por não conseguir dar afirmação à série: era um sucesso qualitativo, seus leitores eram bastante particulares. Havíamos conquistado os universitários, por exemplo, e quando atingimos uma tiragem decente surgiu essa ilusória perspectiva das revistas de autor e eles preferiram deixar de fazer histórias em série, que impõem certas escolhas, por óbvio. Depois, resolveram trabalhar por conta própria, e a partir daí seus trabalhos se tornaram mais esporádicos. Quando voltaram a trabalhar conosco, duas constatações se fizeram: o público formado pelos antigos leitores é pequeno (20-25.000) e para as novas gerações é uma temática já "desbotada" que não faz sucesso. Contudo, os próprios autores já perderam um pouco a vontade de voltar aos mesmos temas e até mostraram um pouco de desinteresse pelo personagem.
Então, não seria o caso de encerrar a saga do personagem com a ventilada "morte de Ken Parker"?
Fiz um pedido aos dois autores e eles prometeram pensar no assunto. Para mim, o ideal seria interromper a saga enquanto Ken ainda estivesse na cadeia. Eles me disseram que por enquanto não têm tempo, mas toda vez que os vejo, insisto.
Comentários de bastidores questionam os limites da "animação suspensa". O seu Mister No continua a viver, passa desta para a melhor, será mantido em vida "artificial"?
Bem, se o público, como espero, aceitar este aumento no preço de capa não será necessário encerrar a publicação. A não ser que façamos uma autocrítica tal que possamos dizer: o personagem Mister No já disse tudo e não vale a pena prosseguir. Raciocínio similar não vale, obviamente, para os grandes sucessos. Se fosse assim, Tex já teria dito tudo há muito tempo. Se os autores não conseguirem nova inspiração, quem sabe...Sabem, nós nos afeiçoamos muito aos nossos personagens, não apenas a Mister No, que eu escrevi, mas a todos. Mas somos obrigados a aceitar a incômoda verdade: hoje não é simples conseguir vender 37-38.000 exemplares com um novo personagem. Se encerro Mister No para lançar uma nova série que venda apenas 15.000 exemplares, como acontece a outras editoras, com que cara vou ficar?
Mas parece que Napoleone e Magico Vento estão indo bem. Ou não?
Sim, mas estão sob observação. Vocês, leitores, sempre nos dão uma primeira oportunidade. Quando publico uma nova série, o jornaleiro vê a propaganda em outras revistas, nota que é um produto meu e lhe reserva um espaço. O leitor passa, vê uma de nossas novas revistas e diz "vejamos como é", porque sabe que nunca lhe demos grandes decepções. Depois, talvez a publicação não lhe agrade e ele vá abandoná-la no terceiro número. Mas uma chance sempre é dada às nossas revistas. Magico Vento começou muito no alto, por volta de 130.000 exemplares, hoje já desceu, mas ainda precisamos descobrir onde vai se estabilizar.
Tendo em mente que hoje os leitores jovens são em menor número, não seria melhor partir para as minisséries?
Vejam, somos gente que demora a aceitar mudanças. Nos agrada pensar que quando se gastam as energias em um novo trabalho, esse vai durar por um bom tempo. Não nos agrada começar e terminar, começar e terminar, ainda que seja um caminho que estamos, em parte, seguindo: Napoleone é uma minissérie. Porém nós a temos sob observação e podemos, teoricamente, transformá-la em uma série fixa se for bem. Se for mal, podemos dizer "estávamos brincando, sempre dissemos que ia terminar" [risadinhas, ndr]. Para nós, contudo, uma publicação que começa com data marcada para terminar é algo que já nasce errado.
Uma experiência editorial como aquela da Bonelli-Dargaud pode voltar, para o futuro?
Deus me livre. "Pilot" vendia 15-17.000 exemplares. Nos tempos áureos, "Orient Express" nunca chegou a 20.000 exemplares. Em teoria, os álbuns da Dargaud podiam ter continuado, pois era material estrangeiro e custava pouco. Mas aquelas edições vendiam 5-10.000 exemplares. Era uma perda econômica relevante. Nunca nos preocupamos com cifras quando uma série apresentava ligeiros prejuízos mas era compensada pelo grande sucesso de outra. Naquele caso, porém, havia a ilusão de um mercado que não existe mais, o de revistas de autor. Aqui em nossas plagas, Comic Art voltou às bancas, mas infelizmente temo que não poderá durar.
"O que acontecerá quando Sergio Bonelli se aposentar? Um cataclismo"
Uma pergunta que todos sussurram: o que acontecerá quando Sergio Bonelli se aposentar e deixar a Sergio Bonelli Editore?
Oh, será um cataclismo [ri, ndr]. Infelizmente, esta é uma empresa baseada na minha pessoa. Mas ainda vai durar, porque hoje temos gente capaz, que sabe como fazer tudo funcionar sem mim. Você citou a aposentadoria, o que seria justo. Falta o filho, pois em outras empresas há um herdeiro pronto a continuar o trabalho do pai. Eu tenho um filho, mas ele não está interessado e não vai dar seguimento. A idéia que me agrada, mais que as outras, seria que cada um dos autores levasse em frente sua própria publicação. Outra idéia é fazer uma cooperativa, mas temo que depois de um ano os vários autores se esganem e não sobre mais ninguém. Outra hipótese, obviamente, é que alguém compre a empresa, mas nesse caso seria necessário um consenso entre os autores. Essa não é uma empresa ligada ao futebol e eu não sou o presidente. A hipótese mais séria é a de que cada autor se torne seu próprio editor, como faz Secchi. Mas é certo que faltaria aquilo que hoje chamam de "sinergia".
