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O mundo de Dylan Dog

pubblicato
26.05.1998
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Copia anastatica dell’originale

Um homem chamado Marx (o melhor dos dois :-). Na página 11 do n.1 (antes de Dylan, que surge somente na página seguinte, e esse é mais um indício da importância do personagem), "O despertar dos mortos-vivos", um tipo bigodudo com a face inesquecível de Groucho Marx mostra sua cara na porta e diz "Sim?". Uma das poucas aparições sensatas de sua vida nos quadrinhos. Mas rapidamente se recompõe e não pára mais.

Groucho em ação: "Salve! Se teve um pesadelo, te aconselho · a acordar. Se é um pesadelo, vou tentar acordar." · (c) 1997 Bonelli

No típico estilo humorístico de Tiziano Sclavi, com chistes, non-sense, tiradas verbais e jogo de palavras, além de um princípio cômico baseado na inversão das expectativas, o bigodudo idêntico a Groucho Marx rouba o nome do melhor dos irmãos Marx e se torna desde o início mais que um bônus hilariante na trama. Sclavi, durante a construção do personagem, acertou em outra base fundamental da saga: Groucho logo se mostrou um dos motivos pelos quais vale a pena curtir DD. Para alguns é "O" motivo, como bem demonstra o estilo "grouchista" das cartas que chegam à redação. Groucho não é um personagem (dele, sabe-se apenas que é um ex-ator cômico e, mais recentemente, que Dylan o encontrou durante uma manifestação pública), é apenas uma aparição humorística (quando às vezes, por exemplo, salva Dylan), todos sabem que Groucho não é de verdade, que é outra das magias de Dylan Dog, e está bem assim. Ainda que, com o passar do tempo, administrá-lo tenha se tornado um problema para os roteiristas.

Retrato de Sclavi que tornou Castelli famoso ;-)

(c) 1988 Castelli

O outro Dylan: Tiziano Sclavi... Sclavi é, sem sombra de dúvida, um autor. Autor na acepção criativa, como o artista que cria e transpõe sua própria personalidade para a criatura. Se Dylan é uma HQ de autor (com todas as ambigüidades do termo), isso se deve não à beleza das histórias, mas sim porque elas têm a marca inconfundível de seu idealizador, são imediatamente reconhecidas pelo estilo, temática, ritmo, situações, personagens. Tiziano Sclavi, como é notório àqueles que conhecem sumariamente sua biografia, fez um grande trabalho em outras séries de Bonelli. Zagor, Kerry o trapper e sobretudo Mister No. E justamente nas histórias do piloto amazônico Jerry Drake escritas por ele é que se mostra mais evidente o estilo de personalização e liberdade que mais tarde foi transposto em grau máximo para Dylan. A chegada de Dylan Dog às bancas golpeou o público com a força de uma marreta: além dos desenhos pujantes, os roteiros assinados por Sclavi são quase todos pequenas obras primas. Cortes cinematográficos e diálogos picantes, bom ritmo de narrativa, jogos de citações que provocam os leitores mais experientes, legendas do tipo "dias depois..." abolidas (era 1986!), uma lengalenga de necrofilia que dura vários episódios num crescendo angustiante, personagens ternos, extravagantes ou delirantes, mas sempre inteligentes e alinhados, a capacidade de resolver intrincadas tramas que lembram aqueles infinitos jogos de "xadrez chinês" ("Morgana" e "História de ninguém" entre outras).

...e suas muitas magias. Dylan não é uma série em continuação. O retorno recorrente ou ocasional de certos personagens é totalmente episódico. No novo número, a cada mês, se faz praticamente tábula rasa dos acontecimentos anteriores. Justamente a edição de estréia foi uma das poucas em que a trama continuou (ainda que de uma forma meio obscura) em alguns episódios seguintes, criando uma mini-ligação familiar/edipiana até sua conclusão no n. 100. A magia de Dylan Dog não está nessa saga (pequena saga), começou a brotar cedo do lápis de Sclavi e vai durar uns bons anos. "O fantasma de Anna Never", "Alfa e Ômega", "Memórias do invisível", "Morgana", "Depois da Meia-Noite", "Gran Guignol", "A casa dos homens perdidos", "O longo adeus", "Johnny Freak" (louvado seja o genial Mauro Marcheselli) são outros trabalhos de primeira que invadiram os corações dos leitores e entraram para a história das HQ italianas. Outras histórias (nem todas de Sclavi) como "Goblin", "Caça às bruxas", "Doktor Terror", "Além da morte", a recente edição dos dez anos, arrasam os quadrinhos populares com forte temática social e consagram Dylan Dog como uma série que tem uma linguagem mais poderosa que a daqueles quadrinhos de horror dentre os quais poderia ter sido confinada.

Passado, presente, futuro Para os fãs mais antigos, incondicionais, para muitos deles Dylan já está morto. Talvez seja uma HQ que ainda se compra por hábito ou para colecionar, mas para eles Dylan já disse o que tinha a dizer, e o de hoje é uma pálida sombra daquele excelente trabalho de antes. Não quero ser drástico, mas uma atitude como aquela de Neil Gaiman em relação ao seu Sandman (terminá-lo no n.75 porque não havia mais estímulo) não seria assim tão estranha para uma série como DD. Lógico que uma idéia dessas soaria como uma blasfêmia para o editor, e isso não vai acontecer. O poço no qual se encontram os temas de uma HQ como Dylan por certo não é sem fundo (ao contrário de outras séries como Zagor ou Nathan Never): muitas situações (serial killers, monstros disformes, transformações bons/maus, relações vida/morte/não-vida) foram descritas de várias formas e começam a envelhecer. Porém, o personagem, os coadjuvantes, os cenários possíveis, todos apresentam tanto fascínio e tanto potencial que fazem pensar em novas histórias de real interesse. Histórias de diversos tipos, talvez sem a "poesia" que criou o mito-Dylan, talvez menos "vanguardistas" e mais rigorosas, mas histórias para se ler sem preconceitos ante os estereótipos da série, segundo a opinião de cada um. Ótimas histórias passaram sob nossos narizes, como "A prisão de papel" ou "Até que a morte os separe", e muitos deram de ombros. Eu me pergunto se não é tanto (ou se não é apenas) a qualidade que está caindo, mas sobretudo se o que está caindo não é a capacidade de se impressionar, de se emocionar, de se entusiasmar dos leitores que eram adolescentes e hoje são jovens senhores. Aos 17 anos eu também babava por coisas que hoje vejo com muito fastio...;-)

La Redazione

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